quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A velha da esquina

Ei galera, minha mãe disse aqui que aquele véa da esquina ligou pros’ome. Se tiver com os flagrante intoca ali e é de booa, fica ai mermo. FOI AQUELA VÉA LÁ, NA ESQUINA Falou alto pra que ela pudesse escutar de lá.
Intão, vei! Valeu ai, a gente tá vazando já, falou.

No outro dia, no mesmo lugar:

Seria massa a gente trocar uma ideia com Maninho sobre aquela história de ontem, ele mora aqui, ele deve saber.
Intão.
Oxe, falando nele, ó ele lá!
EEI PAULINHO – acenando – CHEGA AI!
INTÃO, DEIXA EU FALAR COM A RAPAZEADA AQUI! E ai...

La vem ele...
Dale rapaziada.
Dale.
Dale. Ei mermão, ontem rolou uma ideia errada aqui...
Oxe, qual foi?
Aquela véa da esquina é fofoqueira é?
Mermão, é sim, visse... é foda ela. Mas qual foi a ideia?
Disseram que aquela véa da esquina ali chamou os’ome pra gente porque a gente tava fumando maconha aqui, isso é onda, é? Ai a gente queria saber se era ela mesmo fofoqueira.
Oxe, é bem possível mermo, visse, ela ter feito isso. Mas como ficaram sabendo que foi ela que chamou?
Sei não, a galera que disse ai, por isso que a gente queria saber se ela era fofoqueira.
Deve ter sido ela mermo visse..
Intão, esse bicho aí ta a fim de trocar uma ideia com ela sobre isso.
É quente, visse.
Intão, deixa arrear a lombra um pouquinho que eu chego la.

Boa noite senhora.
Boa noite.
Posso falar um pouquinho com a senhora?
Ela um pouco intimidada
Pode falar.
Poderia ser longe das crianças? É só um instantinho..
Não, pode falar aqui mermo..
Ta certo então. Disseram que a senhora ligou pra polícia ontem.
Ela desviou o olhar.
Foi a senhora mesmo?
Foi.
Veja, eu me chamo Francisco, tenho 25 anos e moro aqui há 20. De manhã sou professor de história e de tarde eu dou aula de geografia. E ainda estou terminando meu mestrado.
Ela balança a cabeça *not too bad
Por que a senhora chamou a polícia pra gente? A senhora não quer que a gente fume maconha ali, é?
É
E por que a senhora não falou com a gente? Por que não chegou pra conversar?
Ela se irritava
“Por favor rapaziada, vocês poderia parar de fumar maconha aqui nessa praça, tem criança aqui...” por exemplo... Mas chamar a polícia, a senhora não acha um pouco violento não isso aí?
Ela escutava
Eu não ia me arriscar...
Arriscar? O que? Mas olhe essa, somos seres humanos! Se você queria proteger suas crianças da maconha, tas fazendo o contrário. Agora elas viram que pessoas de bem também fumam maconha, e aprenderam que isso não tem nada a ver. Ou você vai dizer que sou gente ruim? Todo mundo me conhece aqui, pode perguntar pra qualquer um se alguma vez eu já fiz alguma merda.
Ela ficava meio confusa.
Os tempos mudaram, minha senhora. E não sou eu o culpado. A necessidade dessa transformação na humanidade é mais culpada do que qualquer cidadão isoladamente. É uma pena que contrarie a senhora, essas mudanças. E obrigado pela sua atenção. Boa noite.
Boa noite – como se tivesse sido obrigada.
Ele saia e ela já murmurava.
Ah, e não chama mais a polícia, por favor, ta?! Nós não vamos fazer mal a ninguém, eu juro! Só vamo fumar nossos beck ali mesmo, de boinha...

E ae, falasse com a véa?
Intão
Como foi la?
Eu cheguei la e mandei a ideia. Ela ficou meio assim, mas é nenhuma, foi de boa.
É foda essa galera, ta ligado, Júnio? Faz porra nenhuma da vida, vive trancada em casa, não vive nada. Aí precisa ficar vivendo a custa da vida dos outro. Querendo ver o circo pegando fogo que é pra poder ter alguma história pra contar pras outras véa no telefone mais tarde... Termina fodendo a gente que passa o dia suando e só quer fumar uma coisa com a galera de noite. Mas é nenhuma, a gente vai evitando os conflitos. Eu vou indo nessa que já deu minha hora. Falou rapaziada.
Éé, intão. Se os homi vim a gente num tem nada aqui, só uns beck já enrolado, não vão achar nada, nunca. A gente num é nada, Maninho, a gente aqui só fuma mermo... Amanhã a gente ta de volta.
É queente! Falou galera.
Falou.
Falou.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

mini-saga #9 - debochada

Disse que a admirava pela sua maneira debochada de ser, disse também que desaprovava o deboche escandaloso porque desse jeito soava forçado, e a beleza sublime estava na naturalidade da expressão. Sagaz como era, sabe o que ela me respondeu? "Foda-se".

A rebeldia caótica tocou mais que o deboche escrachado.